segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Que decepção, Rodrigo. Tsc tsc tsc

Mudança de uso. Característica forte de um bairro que durante seu nascimento e crescimento— isso inclui o presente— foram implantados importantes equipamentos, como, por exemplo, o cemitério de Santo Amaro, Vilas Operárias e Fábricas; carrega não só no imaginário da população; mas também, no seu desenho físico, a forte presença de elementos industriais.

Na Rua da Aurora, na qual o contato com o Rio Capibaribe, traz não só a peculiaridade de uma das vistas mais arquetípicas do Recife; como também, condicionantes ambientais que pedem um olhar mais apurado. O projeto de um edifício residencial é sugerido.

O terreno localizado em um dos pontos mais fortes de uma possível arquitetura residencial verticalizada no bairro, compreende a esquina da já citada Rua da Aurora com a Avenida Mario Melo. Praticamente ao lado de quatro grandes projetos que conseguiram expressar seu zeitgeist, o desafio de projetar com um material que, apesar de não ser novo, quebra a cultura do concreto tão intrínseca no espaço, suscita alguns questionamentos.

A principal de uma série de dúvidas a respeito de como tratar a morfologia e tipologia da edificação, aliado aos necessários elementos que um mercado pede, o projeto proposto compreende apartamentos com divisões que possibilitem um espaço interno com 4 quartos, sendo um destinado a área de serviço. Uma segunda possibilidade pode ser atendida; quando todas as paredes, exceto as divisões do banheiro, desaparecem. As unidades que variam entre 105 e 140m² não perdem; mas sim, ganham um outro caráter que visa atender um publico que trabalha dentro de sua própria casa, considerando que Santo Amaro é berço de uma cena artística e cultural do Recife.

Além de estar situado em duas expressivas vias de deslocamento da cidade, o terreno possui uma de suas faces voltadas para uma travessa. A ruela que praticamente não possui calçada, poderá ser beneficiada com a doação de 1 metro do terreno. Criando assim um ponto a mais de visão— afinal, o muro é caracterizado pelo uso de grades; a travessa passa a ter um destaque maior.

A continuidade de um certo desenho observado nos edifícios Alfredo Bandeira, Capibaribe, Iemanjá e Montreal, que se projetam com suas marquises que cobrem a calçada, é quebrada com qualquer edifício construído com a legislação vigente. A troca público-privado que acontecia com os elementos de coberta (marquise) dos prédios já citados, pediria uma nova visão de um possível beneficio para o pedestre. Atento para a necessidade de visão constante dos pedestres para com o prédio e do prédio para com o pedestre, a utilização de muros constituídos com grades e equipamentos que tornem a calçada um ponto de encontro, é um fator que ajuda de forma não agressiva ao combate de uma violência urbana.

Os apartamentos possuem quartos e zonas de constante movimento em todas as faces que compreendam vista para as ruas do entorno. Apesar de sua forma dinâmica, não existem grandes mudanças na organização espacial dos apartamentos. A já tradicional sala integrada à cozinha e o uso de quartos sociais que aparecem concentrados em uma zona especifica da casa, só é quebrado pela disposição dos ambientes da sala em linha paralela a da varanda e um quarto de serviço que está situado numa face valorizada da edificação.

A decisão por varandas escalonadas surgiu ainda no inicio da concepção, com o intuito de aproveitar as diversas vistas que o terreno pode proporcionar, aliado a condição dos fortes ventos nessa área. Os pavimentos mais altos possuem varandas, mas as mesmas são recuadas e não sacadas, para uma melhor proteção contra os ventos e melhor utilização do espaço citado.

Com dimensão acima dos padrões hoje usados e utilizando painéis de brises; ou seja, criando uma dinâmica na percepção transeunte e maior conforto para o usuário, o conceito das varandas no espaço interno toma outro rumo e convida sem cerimônia para uma utilização que se confunde com outras áreas sociais da unidade. A proximidade com a cozinha é outro atrativo que assegura de uma vez por todas uma utilização justa com a finalidade do mesmo.

No trajeto que leva ao interior do edifício, o piso não corresponde ao principal traço do agenciamento. O que guia o acesso da entrada até a grande área aberta que se faz de recepção, são os elementos do teto. Os planos sobrepostos comunicam o caminho; mas também o desenho do corpo do edifico com seus traços e inclinações principais. A reunião de linhas que compõe o agenciamento podem ser observadas em mais uma área destinada a convivência dos condôminos, que se localiza entre o térreo e o primeiro pavimento.

Invertendo a ordem do mercado atuante, a área de lazer é citada por ultimo, mas satisfaz desejos contemporâneos sem, claro, cair no trivial. O salão de festas no ultimo pavimento, possui área de apoio, cozinha, banheiros e uma piscina que se perde literalmente ao lado da paisagem do entorno. A mesma foi criada com o intuito de possibilitar continuidade visual, dando a impressão da falta de peitoril em determinados locais; atraindo o olhar para a paisagem.

A busca por soluções contemporâneas, tendo como ponto de partida exemplos de outras épocas, possibilitou a compreensão de uma problemática atual e possíveis resoluções. A convivência de um bloco implantado no eixo cartesiano e outro não, brinda mais uma vez a vontade de inovar com a de se manter ligado a raízes incertas na paisagem urbana.


(Memorial descritivo do primeiro projeto da disciplina "Projeto de Arquitetura III"- Edifício Residencial em Estrutura Metálica)


terça-feira, 6 de outubro de 2009

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É quase meia noite. E eu ainda estou aqui. Preciso de horarios, preciso dormir. Mas também preciso responder emais, fazer ligações, organizar os papeis e tentar pensar que foi necessário o caos para a produção. Eu quero mais. E fazendo menos.

domingo, 6 de setembro de 2009

Eu nem fui

Eu preciso arrumar. Meus quartos, minha bolsa, minha roupas, meus papeis. Jogar tudo numa caixa e esperar o tempo fazer o resto. Qualquer coisa ajuda nesse momento. Qualquer coisa ajuda quando a gente não quer fazer outra coisa.
E é ótimo. Tem que estudar? Arruma a casa. Tem que terminar algum projeto? Não existem cinco minutos mais preciosos para passar aquele creminho esquecido no fundo do armário, do que o que se usa para encontrar e abrir um livro.
Quando a gente não quer, qualquer outra ocupação serve. E como serve.
Deixando as ocupações aleatórias de lado, vamos ao que me interessa. Vamos? Não. Eu vou sozinho. Vou pegar minha malinha e sair por ai. Eu quero mais ocupação e dor de cabeça.
Alias, esse monitor não vai com a minha cara. São só mais cinco minutos no banheiro, no espelho...
Eu não quero mais tempo. Tempo requer tempo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Voz Rouca

Escutando aquelas músicas tristes. Ou será que a tristeza é que me escuta, que me entende? O telefone toca, mas a voz rouca rouba qualquer entusiasmo. Era apenas um recado. Errado. Como sempre. Nem ligo. Afinal, não disquei o número. Não gastei o meu tempo perguntando se alguém estava em casa. Eu estou.

O piano parece alegre. Mas a voz que acompanha as notas suaves diz o contrário. Como quando apresento algum trabalho. Como quando defendo o que não quero para mim. A gente acaba vendendo o que não presta e depois reclama. Depois reclama querendo colocar a culpa no outro. Afinal, o outro sabe o que faz; a gente não. A gente fez pelo simples fato de precisar, de ser a primeira vez, de ter surgido a oportunidade única de nossas vidas. Os outros sabem.

Corri. Mas não sai do lugar. Apenas meus olhos. Apenas meus olhos que não atenderam ao telefone e, por isso, não estão cansados, vagam procurando o próximo convite. Aperto meus cintos. Não quero bater. A música nem acabou, mas mesmo assim abro o livro. Concentro-me parte na leitura, parte na escuta. Como quando atendi ao telefone mas prestava atenção no apartamento da frente. É. Parece que meus olhos são extremamente dispostos.

A música não acabou. Muito menos o livro. Fecho os dois. Sim, fecho a música. Agora ela corre inevitavelmente para o andar de baixo. Eu tapei os ouvidos mas consigo imaginar as linhas que li anteriormente. Consigo perceber no que não prestei atenção. As lacunas são sentidas. Não consigo fazer determinadas conexões. Pontes que ligam personagens. Pontos que terminam uma frase e dizem que a história acabou. É. Parece que nem tão cedo vai acabar

terça-feira, 21 de julho de 2009

RenatoIsabeleRobertoLauraPapaiNoel. Eles continuam simpáticos. E eu não gosto disso.







sábado, 18 de julho de 2009

Férias...

Férias! Ou melhor, "...férias..." com o 's' quase desaparecendo...Mas viva a falta do que fazer, viva a internet que inventa de sumir nesse momento tão dificil da minha vida.
Preciso de dinheiro e livros. Livros para dizer que estou ocupado. E dinheiro para guardar. Para me sentir seguro. E feliz. E para esquecer que ainda faltam 2 semanas inteiras. Não que eu goste das aulas ou esteja de olho em ninguem- não mesmo!- a questão é que a rotina de acordar tarde e não pensar em prazos, cansa muito!
(Eles demoram tanto.)

Mas vou parar de cansar. Vou vestir roupinha nova para mostrar meus novos talentos. Minha meta eram três por dia. Fico feliz por ter atingido minha meta essa semana.
3x6=18. (Sim! Minha semana tem seis dias.)

(E é verdade. As mesmas caras anos e anos reproduzinho as mesmas matérias, Terminais rodoviários cheios no feriadão, Mais mortos nas BRs, o salário de dezembro só será pago em fevereiro, Receita de Peru, depois Receita para ficar rico ou Receita para arranjar marido em Ano Novo, Réveillon, Ressaca do réveillon, as mesmas coisas ditas do mesmo jeito. É chato. É estúpido. É aviltante. E as frases partidas dos repórteres, a pronuncia cheia de vírgulas? "O presidente PONTO disse PONTO aos jornalistas
PONTO que PONTO a PONTO situação PONTO está PONTO sob PONTO controle PONTO, Lilian.")

Trecho do livro "Um Certo Rumor de Asas", Walter Moreira Santos.

Para não perder o costume, mais uma mudança de assunto repentina; maré impede caminhar na areia da praia. Preciso voltar para a faculdade. Dois meses de férias... (com o 's' quase desaparecendo) não é pra mim.
(A esquerda, minha fase 'quero ser artista'.)

domingo, 5 de julho de 2009

Depois do Trabalho

De luto. Não pela morte de alguém que, na verdade, não conheço. Fico de luto pelo fato de acreditar que a chuva parece atingir a todos. E eu que pensava que alguns esperavam ela passar. Sim, a chuva uma hora passa e a gente pode atravessar a rua sem molhar nossa roupa. Mas, pensando bem, é só uma roupa. O que está por baixo da mesma é a essência, certo? Errado.
Quanta petulância! Eu falando se algo está certo ou errado. Nesse momento, me pergunto quantas vezes já me molhei. Mas, claro, ninguém viu. E outra, foi consciente, foi pelo desejo de saber como é. Não, não como um cigarro que a gente acende olhando as fotos de cadáveres atrás do rótulo dourado. Não! A coisa é mais complexa. Eu é que não vou tratar isso como um comportamento. Vou tratar como uma coisa. Não me atrevo a colocar letra maiúscula. Eu, definitivamente, não quero debates sobre o porquê dessa birra na grafia.
Engraçado. Pulando os parágrafos aleatoriamente a gente se pergunta o que divide os capítulos das nossas horas. São tantas coisas que a gente para pra pensar e se perde, tanta coisa que se perde. É isso! A chuva se perde. Sempre fiquei pensando nas gotas que caem sobre o meu ombro. Uma hora, ela vai acabar se reunindo as outras que descem pelo bueiro, que consomem nossas narinas. É nisso que dá morar numa cidade que, por vezes, cheira a esgoto.
Como as gotas da chuva, aquelas pessoas que não esperam, se perdem. Eu não. Espero a chuva passar e, mesmo sem adiantar, procuro uma lógica nessa correria. O pai morreu? O horário da consulta começou a 10 minutos atrás? Ou será que conseguem sentir que o prédio vai desabar? O filho espera na companhia da babá. Se não chegarem a tempo, tudo desaba. Ao contrário da chuva que dilui no meio de tanta água, de tanta lama, de tanto mar; ao contrário da chuva, os escombros do prédio vão ficar a espera da retro escavadeira- e de espera, eles não sobrevivem.
Como os ônibus que parecem dispensar marcha ré, a vida dos automóveis coletivos que no lugar das rodas, usam sapatos Datelli, Sergio’s, ou mesmo Di Santini- afinal, classe média baixa também entra na história das avenidas largas (e como entra!)- parecem tentar marcar o chão. Marca infalível de uma prestação no cartão de crédito. Eu quero saber se todos esses indivíduos baterem as botas. Caramba, as Casas Bahia vão falir. E a chuva, a santa chuva que se infecta com o esgoto, como volta ao doce rio que insistimos em agredir?
E é mais engraçado ainda. Os ciclos. As dores. Sim, dói perceber o quão limpo são os dentes; porem, o quão sujo são os pés. Mas é assim mesmo; a boca, a gente fecha; os pés, a gente sufoca. Quando queremos parecer felizes, abrimos aquele sorriso! Os pés continuam sufocados. Porem, a noite, em casa, eles conseguem respirar. Sim, os ciclos, os parágrafos, a morte, o ônibus, os pés e, claro, a água.
Pensando bem, ainda bem que eles não ficaram do meu lado na hora da chuva.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Releitura

Dobrou a esquina como faz quase todos os dias da semana. Pelo menos de segunda a sexta. Pelo menos quando não desvia o caminho por algum fio que teima em sai da ordem, assimetricamente arrumada, de seu cabelo. Os pingos da chuva não ajudam. Leva a mão no rosto para enxugar e não parecer suor. Mas é mês de chuva. Ninguém vai reparar. Mas é seu primeiro dia. Todos vão olhar.

Na rua não tem asfalto. A calçada avança com as pedras portuguesas que teimam em sair do lugar. Qualquer dia desses pode fazer um cego cair. Não como as gotas que insistem em molhar seu cabelo cacheado; mas sim, como as folhas que caem, com o vento, sem ressentimento de deixar os galhos solitários. Mas virão outras folhas; virão outros cegos.

Não enxerga o que pode acontecer. Enxerga a porta que se aproxima e teima em parecer mais perto. Ao contrário dos outros que pedem para chegar logo ao seu destino. Ao contrário dos que pegam o metrô para não enfrentar o engarrafamento. Ele para. Olha. Por um instante, pensa nos 7 ou 8 passos, que precisa para abrir a porta e entrar. Por um instante. Agora ele dobra a outra esquina.

Um quarteirão a mais para conhecer. Ele olha para trás. A porta era bonita. Não era de correr como a da varanda do seu apartamento. Era de vidro. Vidro escuro. Alguma película para proteger do sol. Por que será que colocam uma porta de vidro quando sabem que o sol bate. E desbota os móveis. E aquece a sala com ar condicionado. E não deixa ninguém parado na porta. É isso! Não querem que ninguém fique parado olhando. Querem que entre. É uma boa estratégia.

Mas o rapaz não está parado. Continua a andar. A rua parece estreita. Por vezes, intimida quem passa. No final, um edifício faz barreira. Ele está na outra rua, mas parece que está fechando a que o rapaz percorre. Uma rua sem saída. O rapaz franzi a testa até entender. As árvores começam a aparecer e uma espécie de túnel não deixa chuva molhar mais seu rosto.

Perco-o de vista. Como sempre acontece com os que andam pela rua estreita, eu tento imaginar. Deve ser agradável. As copas das árvores protegem. Nessa rua, não existem muros. Ele poderia pegar um atalho. Poderia. Mas ele veste uma calça livre de amassados. Ele carrega uma pasta de couro. Ele não vai correr o risco de sujar as roupas. Ele não pegou o atalho. Pelo menos não pelo tempo que espero para vê-lo na outra rua.

Ele pode ter encontrado algum amigo. Ou amiga. Ou namorada. Talvez ele não tenha uma. Talvez ele só esteja amarrando o sapato. Não! O modelo de couro que ele calçava não tinha cadarço. E se um carro subiu a calçada e ele não percebeu a tempo de correr? Não. A rua é estreita. Os carros passam devagar. Ele pode ter entrado num táxi. Mas isso amassaria sua roupa.

Ele surge na outra rua. Agora, mais longe, não consigo diferenciar o esgar que reina no seu rosto. Ele deve pensar em alguma piada. Ele pode se imaginar numa entrevista. Eu, quando ando pelas ruas, me imagino dando entrevista sobre como me tornei alguém tão prestigiado pelo meu trabalho. Eu as vezes falo só. Em voz alta. As pessoas me olham. O esgar aparece. As pessoas olham para os lados, constrangidas. Mas ele não cruza com ninguém. Ele pode parecer sério. Ele pode falar em voz alta. Ele pode desistir e ir para casa.

Agora perco de vista. Só sua sombra é possível identificar. Essa rua é movimentada. É larga. Ele não dará entrevistas. Nem vai mostrar o sorriso no canto dos lábios. A sua sombra, se aproxima de outras. Vou perder. Não acredito vou ter que esperar até virar a esquina novamente.

Talvez a seja a sombra mais alta. Não, ele não é tão alto. Talvez seja a que toca nos carros da segunda faixa. Não, ele não balança tanto a cabeça.

Nem a primeira nem a segunda. Seus donos dobraram a esquina. Um senhor gordo de chinelo. Uma senhora magra, mas com quadris largos. Ele talvez tenha desistido. Nessa rua. No começo. Tem uma parada de ônibus. Ele voltou pra casa. É isso. Não teve coragem de entrar no prédio. Não teve coragem de dizer por que queria o emprego. Mas por quais razões ofereceria uma vaga pra quem resolve dar uma volta no quarteirão?

Minha mesa é afastada da janela. Tento lembrar a razão. Ah, sim, a claridade. Tive que escolher a sala no poente. Era mais barato. E podia olhar a rua e quem se aproximava. Agora sento e tento lembrar se fiz algo de errado. Sim, lógico, o que seria errado? Abrir o vidro? Acena e pedir para que não dobre a esquina e termine logo com o que começou?

Ele desistiu por minha causa. Ele, realmente, não pretende trabalhar comigo. Talvez tenha percebido minhas intenções. Talvez alguém tenha contado. Eu podia jurar que um daqueles seus momices eram a tradução de sua confiança. Eu podia jurar que nós compartilhávamos algo.

Alguém bate na porta. A secretária. Quem mais pode ser?

“Senhor, o jovem chegou.”

Ele não pegou o ônibus. Ele não voltou pra casa. Ele pode ter pensado que esqueceu de alguma coisa. Sim, ele pode ter pensado isso. Não, ele não esqueceu. Apenas pensou que esqueceu. Percebeu que o que queria. Tudo o que queria, estava aqui. É isso.

“Posso mandar entrar?”

Não. Não pode. Eu preciso de tempo. Sim, ele dobrou a esquina. Eu também preciso de esquinas. Mas não tenho esquinas na sala. Tenho janelas.

“Vou chamá-lo.”

Não dei ouvido. Eu precisava de um tempo. O relógio do prédio vizinho estava na minha frente. Eu não gostava de ver as horas. Mas eu precisava de tempo. Precisava de tempo para entender o que se passava em minha cabeça. O que poderia passar quando o rapaz dissesse algo que eu não queria ouvir. Mas era eu que estava entrevistando. Era eu que devia dizer o que ele ia fazer. O que ele ia fazer no trabalho. Mas o que ele ia fazer no trabalho não me interessava. Eu precisava saber o que iria dizer.

Coloco a cabeça para fora da janela. O ar quente entra. É agradável quando se está a horas no ar condicionado. Condiciona a me fazer chorar. Porque meus olhos ressecam. Porque preciso de tempo. Então eu mordo. Mordo meus braços. É o tempo que preciso para entender. É o mesmo que me consome.

Como. Como minha pele e não sei. Continuo sem imaginar o que falar. Então eu como. Ponho para dentro pedaços de mim mesmo. Não sei o que falar. É espelho. Releituras que me obrigam a parar. Eu caio. Ele entra.

Fala com os olhos. Não com o sorriso no canto dos lábios. A secretária acrescenta.

“Ele não falou para esperar.”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Bobinho.

E um segundo fora do chão antecede o que não sei. Não corro, nem ando devagar; apenas sinto. Quando lembro, sorrio pensando no próximo passo.
É o que resta. O próximo.

domingo, 7 de junho de 2009

Ainda não aprendi.


Estou mais convencido que preciso de doses homeopáticas daqueles que, por vezes, são apenas cenário. Acho que sempre me senti feliz por perceber meus progressos individuais. Como quando se faz algo só; olhar em volta e perceber que é único, faz um bem danado. Melhor ainda quando todos buscam por algo “novo”.

(—Se eu quisesse aprender, tinha que fazer. Percebi que é mais fácil descobrir sozinho.)


“Novo” é dor de cabeça pra mim. Acho tudo tão mastigado; tudo parece uma daquelas saladas feitas com macarrão parafuso, misturado com maioneses e verduras- se elas existirem. De qualquer forma, a gente como tanta pseudo-salada por ai e nem reclama de quantas vezes foi no banheiro por isso.

Dia desses me perguntaram o que eu costumava escutar. E depois de pensar um pouco, percebi que não escuto quase anda. Pelo menos pro cenário, eu continuo dançando sem música, balançando a cabeça e falando frases desconexas.

E eu não pedirei pra tirar o seu fone de ouvido.

(Oh, meu cabelos!)

sexta-feira, 5 de junho de 2009






Terminamos como começamos.

domingo, 31 de maio de 2009

O barulho

Como faz falta. Da janela do meu quarto, eu percebo as luzes do outro prédio. Da cadeira que não sai de frente do computador, eu escuto os ruídos engraçados do apartamento de baixo. Fico imaginando se também me escutam. Não sei. Não faço barulho. Mas gosto de escutar. Gosto de parar tudo e escutar o que, provavelmente, ninguém dedica um tempo para entender.
Eles chegam tarde. Três da manhã e acordo com perguntas sobre o jantar do dia seguinte, com discussões sobre o trabalho. Árduo. Nunca entendi no que trabalham. A voz feminina e rouca sugere alguém que trabalha com eventos. Ou será que arranha sua voz diante de uma sala com 50 alunos de uma escola particular? Dele eu tenho menos certeza ainda. Sempre que começa a falar, o cachorro interrompe. Pelo visto o animal é anterior a união. Ou será que o cachorro realmente compete com a rouquidão da moça que não para de perguntar o que ele quer pro jantar? Ele também parece não querer responder.
As perguntas se estendem e tudo começa a não fazer mais sentido. A discussão começa. Não sei como os vizinhos não reclamam. A luz está acesa, é fácil identifica o local do barulho. Mas eles não se importam. Chegam tarde e saem cedo. Acho que só tomam banho e dormem um pouco.
Engraçado. Faço quase o mesmo. Mas me canso mais. Não tenho dúvida disso. O metrô e os dois ônibus consomem mais energia que qualquer trabalho. Na verdade não. Estou sendo dramático. Agora pego carona. Agora sento, e vou sentindo o ar condicionado. Agora chego sem nenhum amassado.
O relógio marca algum horário que não sei bem. As vezes olho pro relógio como se ele fosse falar comigo. Não me importo de não falar com ninguém. Me importo de não olhar pro relógio com convicção. Me aborreço pelo simples fato de voltar a olhar. As vezes olho mais uma vez pra ter a certeza que estou no caminho certo. Não quero dormir. Quero ganhar a convicção que rege um relacionamento que não tem medo de gritar. Mesmo sabendo que os vizinhos podem ouvir.
Mas eu não falo com ninguém. Eu apenas olho através da janela. E escuto com a convicção da minha cadeira.



Ethos

Universal é a palavra que pode identificar o conceito de casa. Mas o quão universal são os que fazem a moradia?

O que existe dentro de nossas casas, e o que vemos como conceito formado, muitas vezes reinam como perpétuos e sem grandes mudanças ao longo da história. No imaginário dos indivíduos, no que diz respeito as habitações, não é diferente. Seja em relação ao conforto ou mesmo aos hábitos em geral, teimamos em acreditar que os elementos que hoje nos rodeiam, possam não ter existido num contexto de outras épocas e lugares. Um exemplo claro e preciso dessa falta de relativização aconteceu numa exposição, realizada no Museu do Índio, onde foi construída uma oca. O público não hesitou em falar a respeito da rusticidade ou da falta de conforto.

Quando pensamos em conforto e abrigo, a imagem da casa vem em nossa mente. E, logo, percebemos a presença (forte) dos arquétipos que constroem nossa mente. Mas é necessário, urgentemente, um olhar mais apurado para tudo que está ao nosso lado, afinal, infelizmente, é o que menos enxergamos.

Mungnie, nome atribuído ao local de cerimônias da tribo de índios Ikpeng. Tem formato semelhante a uma oca tradicional, mas o simples fato da possuir um espaço interno iluminado já muda o seu caráter. Traçando um paralelo com a comparação que Lúcia Leitão faz em seu livro, “A Casa Nossa de Cada Dia”, podemos perceber claramente a importância que a luz tem na distinção da função atribuída a cada espaço. A autora se refere a casa com útero. Logo, um lugar escuro, que tenha proteção lateral é, compreensivelmente, mais adequado a habitação.

São inúmeros os exemplos do quão forte é a relação de proteção e útero materno. No livro, “Memórias de uma Esquizofrênica”, de M.A Sechehaye, a protagonista/paciente, entra em estágio fetal sempre que não consegue lidar mais com o “país da clareza” (nome atribuído pela própria quando está em crise).

“—Mamãe quer que a Renèezinha não tenha mais dor. Mamãe quer que Renèe entre no “charco”, no “verde” de mamãe.

Depois lhe dei a injeção. Enquanto se operava o efeito do medicamento cerrei a cortina e o quarto mergulhou num verde penumbra. Observei a Renèe:

—Estás vendo, Mamãe pôs Renèe no verde, ela pode ficar tranqüila.

Um ligeiro sorriso- o primeiro em muito tempo- passou nos lábios da pequena doente, que adormeceu, distendida e pacificada.

Na vez seguinte em que Renèe chorou dizendo:

— O verde, o verde foi-se embora.

E de novo, pelo mesmo meio, eu a repus no “verde”.

Autorizei-a assim a ficar completamente passiva, a desfrutar a perfeita quietude do bebê ainda não nascido.”

Com um significado que ultrapassa e forma barreiras, afinal, constrói arquétipos, a moradia se mostra presente como refúgio, como algo pessoal, como um lugar presente na mente- no sentido individual da palavra; mas que, porem, é realizada por muitos. O coletivo é presente e não pode ser descartado. Pensando nisso, a escolha da oca como instrumento de interação com o público, traz a tônica do estudo realizado e, mais, da síntese do tema centralizador: “A Arquitetura da Felicidade”. Afinal, é construída por muitos e para muitos. Quase como um embrião de cidade.

É individual o conceito de cada um, porem é coletiva sua construção.

“E foram os tijolos brutos postos sem espalhafato pelas mãos duras feito pedra que , um a um, sempre entre concreto e silêncio, caracterizam um acaso quase desleixo, cinza feito o desespero, a erigi-la, fria e imponente frente à calçada: uma casa.”*

* Trecho do livro “Beijando Dentes”, de Mauricio de Almeida.



E, assim, espero começar pensar a pensar no próximo período.

segunda-feira, 25 de maio de 2009


Chegando

domingo, 10 de maio de 2009

Mais tarde, ok.

Eu realmente preciso tomar um chá de bússola. Sério. Não dá mais pra assistir 10, 15 episódios desse meu novo vício. Sim, eu tenho um vício comum e bobo e preciso me livrar disso. Mas como? Acabando logo com isso. Selecionando essa próxima semana e me dedicando totalmente a próprio.

Como se não bastasse, eu ainda consigo terminar tudo no prazo e receber criticas positivas. Quer algo pior para um estudante com sedentária leitura? Preciso acabar dois livros que comecei e teimo em dizer que estou ocupado. (Michel Foucaut não conta mais. Só ano que vem!)

Não quero pensar nos vestibular. Possibilidades que, apenas, saem da minha boca sem muito sentido (ainda). É por isso que eu continuo adiando. E assistindo Kyle.

(—Mas você fez aquilo noite passada?
—...)

domingo, 3 de maio de 2009

Tirar as crianças da sala não é preciso. Powaqqatsi mostra que a infância não existe. Pelo menos não para as que aparecem representadas como numa pintura da idade média. Ou seja, um adulto numa escala reduzida. O que as diferencia? Os olhares surdos que questionam incessantemente.

Guiado pelas neblinas, o filme mostra o coletivo. O conjunto de lotes, a vista aérea, a pessoas vistas de longe. Tudo parece em harmonia, mas é só ampliar a visão e enxergar um pouco mais- digo um pouco mais por não ser “melhor” uma palavra adequada.

A roda sempre presente nas criações humanas, questiona a força centrípeta que parece ter fugido e agora corre solta em uma única direção. Nada mais claro que comparar a ganância com algo sem controle. Sem controle, alias, é o fato de não enxergarmos além das imagens. Sabemos que existe algo por trás da lama que cobre rostos e marca passos. Mas de quem seriam os rostos e passos? A lama caracteriza o mal, mas ilude o espectador.

Ao longo da duvidosa seqüência aleatória de imagens, o filme escreve a história do poder e sua ligação direta com a arquitetura. Seja nos monumentais edifícios religiosos, ou nos austeros arranha-céus que apenas refletem com seus vidros, mostrando que nada questionam, que nada falam e que fazem jus ao seu zeitgeist.

De uma forma geral, as arestas aparecem em todos os sentidos; seja nas construções ou, até mesmo, no mecanicismo dos passos controlados por sinais de transito das grandes cidades.

A neblina, cada vez mais escura, que determina o trabalho, a dúvida, a poluição e o caos, mostra o quanto a função dos espaços e o senso de localização estão fora de foco. A criança, que antes questionava, agora para, olha, indaga, mas, logo depois, segue sua caminhada. Não é preciso dizer que o mesmo é feito por todos.

O artifício do foco é, mais uma vez, utilizado. O que não se vê talvez não seja o que não se quer mostrar. As imagens, agora, não são mais necessárias para saber a dimensão do assunto. Muito menos as crianças.

(Reflexões superficiais sobre o filme "Powaqqatsi" do diretor Godfrey Reggio)

Eu preciso parar para escrever. De verdade. Mas fazer de ultima hora é tão doce. E, bem, estou longe de querer controlar minha glicose.